A Música em “Onde andará Dulce Veiga?”

A narrativa de Caio Fernando Abreu apresenta uma imersão, dentre vários mundos, ao da música. Letras, trechos, canções, moda, ambientes e personagens (reais ou não) integram o romance, levando o leitor a um contexto quase que “de bastidores”. Como ressalta José Geraldo Couto no prefácio da obra, a “Dulce Veiga do romance é, em grande medida, uma aparição, um fantasma, uma projeção”. Projeta-se um universo de temas (não somente o de Dulce, importante cantora desaparecida), mas aquele encontrado no dia a dia da banda “Vaginas Dentadas” e que permeia o cotidiano do jornalista-personagem.

O livro, dedicado à memória da cantora Nara Leão, mostra um verdadeiro rol de grandes nomes da música nacional e internacional, que, por vezes, suscita o leitor à dúvida: “E este personagem? É real ou imaginário?”.

Caio Fernando Abreu (Foto: divulgação)

Um bom exemplo que salienta a atmosfera pela qual a história é tomada:

 O motorista japonês tentou puxar conversa, mas respondi com um grunhido, ele desistiu depois de comentar que ia cair a maior água. Afastei o banco para trás, estendi as pernas, abri mais o vidro. Ele ligou o rádio, rezei para que não sintonizasse num daqueles programas com descrições hiper-realistas de velhinhas estupradas, vermes de sanduíches, chacinas em orfanatos. De repente a voz rouca de Cazuza começou a cantar.

Para Cesar Garcia Lima Caio Fernando Abreu

 À maneira de autores da metaficção historiográfica, que se apropriam do factual para criar caracteres e tramas fictícias, escolhe como um mote da narrativa uma canção “dos anos 40 ou 50”, composta na verdade por Custódio Mesquita e Mário Lago em 1938 e sucesso na versão de Orlando Silva, conhecido como “o cantor das multidões”. No texto, a canção aparece pertencendo a Dulce Veiga. Assim, o escritor gaúcho adentra uma ainda pouco explorada face do encontro da música popular brasileira e a literatura, dessacralizando essa última como arte. A canção “Nada Além”, como pretexto, transforma-se em estratégia atemporal de sobrevivência […].

“Onde andará Dulce Veiga”, de Caio Fernando Abreu (Imagem: divulgação)

Uma parte significativa da história acontece no esquema de “fundo musical”. O autor explora esse artifício, como nos seguintes trechos:

Do fundo do bar vinha uma música de percussão primitiva, tambores na selva, repetindo qualquer coisa como Bob Marley pra sempre estará no coração da raça negra.

Das caixas de som colocadas ao alto saía uma música tão familiar que custei a reconhecer Ray Conniff.

Um breve levantamento pode revelar uma combinação no cruzamento de personagens reais e fictícios durante a narrativa. Delimita-se neste caso apenas aqueles que desempenhem o papel de cantores ou músicos dentro da cronologia das ações:

PRINCIPAIS PERSONAGENS CITADOS (ÂMBITO MUSICAL)

NOME

DESCRIÇÃO

COLOCAÇÃO NA HISTÓRIA

Dulce Veiga

Cantora

Principal

Márcia Felácio

Filha de Dulce Veiga e vocalista

Principal

As Vaginas Dentadas

Banda de rock liderada por Márcia

Secundários/coadjuvantes

Orlando Silva

Cantor carioca nascido em 1915. Considerado um dos maiores artistas da primeira metade do séc. XX

Citado

Pepito Moraes

Pianista de Dulce Veiga

Secundários/coadjuvantes

Nara Leão

Cantora brasileira conhecida como “musa da Bossa Nova”

Citada

Bob Marley

Cantor, guitarrista e compositor jamaicano. Ícone do reggae

Citado

Lou Reed

Cantor, guitarrista e compositor norte-americano. Eleito como um dos maiores guitarristas de todos os tempos pela revista Rolling Stone

Citado

Ray Conniff

Músico norte-americano, considerado precursor do estilo musical Easy Listening.

Citado

Elis Regina

Considerada por muitos críticos, comentadores e outros músicos a melhor cantora brasileira de todos os tempos

Citada

Nana Caymmi

Cantora de grande destaque no cenário nacional. Filha do músico Dorival Caymmi e da cantora Stella Maris

Citada

Bola de Nieve

Nome artístico de Ignacio Jacinto Villa Fernández, cantor, pianista e compositor cubano

Citado

Mozart

Influente compositor austríaco do chamado “período clássico”

Citado

Dalva de Oliveira

Grande sucesso na primeira metade do séc. XX. Considerada a “Rainha da Voz” ou “Rouxinol brasileiro”

Citada

Maria Bethânia

Segunda cantora feminina em vendagem de discos do Brasil e a de maior vendagem da MPB: 26 milhões de cópias

Citada

Gal Costa

Estreou ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Tom Zé e outros, o espetáculo Nós, por exemplo (22 de agosto de 1964), que inaugurou o Teatro Vila Velha, em Salvador.

Citada

Carmem Miranda

Cantora e atriz luso-brasileira.[nota 1] Sua carreira artística transcorreu no Brasil e Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950.

Citada

Dados biográficos: Wikipédia.

Em muitos momentos, Caio Fernando, através de uma descrição detalhada, provoca uma observância de traços marcantes, como no trecho:

 Aquela voz de vidro muído, áspera e aguda, girando dentro de um liquidificador, nem feia nem desafinada, mas incômoda na maneira como ocupava o cérebro da gente, aquela voz que, independente do que cantasse, dava a impressão de sair do fundo de ruínas atômicas, não as ruínas falsificadas daquele cenário de papelão, mas as de Hiroshima […]

Onde andará Dulce Veiga? promove um reencontro com personalidades da música, percorrendo, assim, épocas distintas, estilos diferentes, abordagens que levam a ficcção a dar as mãos com o real. Como bem inicia a história com a frase “Eu deveria cantar”, finaliza o romance com um brado, um desabafo, uma espécie de libertação: “E eu comecei a cantar”.

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